Imigração e mídia: a importância do contexto e as perguntas

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Beatriz Sánchez, Jornalista Radio La Clave

A imigração, como muitos dos tópicos da atualidade, tem sido foco de atenção nestas últimas semanas.  Está na “moda”. Foi “trending topic”. A mídia segue a tendência e a trata. Isto é doce— porque claramente é tema—, mas tem muito de amargo, porque é abordado em “curto”, sem reflexão, baseados em caricaturas e com muito “eleitoralismo” no meio. Assim é como surgiram frases de candidatos à presidência que relacionaram a imigração com a delinquência, de parlamentares que propõem restringir a entrada— como se se tratara de fechar uma chave— e outros que visam a restringir aos “ilegais”, como se esse não fosse sempre o estado em que chegam os imigrantes ao Chile para depois legalizar sua situação.

O primeiro que afirmaram no Ministério Público é que a cifra de delinquência de estrangeiros é mínima dentro do total de delitos. Ainda mais, as vítimas de delitos estrangeiras são mais do que os agressores. Em segundo lugar, prevenir a entrada dos estrangeiros não é tão simples como fechar uma porta. Acadêmicos e especialistas em migração indicam que uma pessoa que procura ingressar a outro país para ficar nele, fará o que for. Se não puder por uma passagem de fronteira, fá-lo-á por outro. Se não puder ingressar como turista, fá-lo-á ilegalmente, inclusive, arriscando-se e alimentando às máfias da fronteira que fazem negócios traficando pessoas. O tema é muito mais complexo. Se forem postas restrições para legalizar a situação dos migrantes, não será detido o número de pessoas que ingressam. Só provocará um mercado negro de pessoas dispostas a trabalhar em condições inferiores, sem possibilidade de denuncia.

Tem tanta caricatura e tanto desconhecimento que a mídia reproduz e reforça. Mas, onde começa o problema?

Tem que ter clareza. Um tema complexo não tem soluções fáceis. Um tema complexo não se responde com frases fáceis. Um tema complexo não pode ser um instrumento eleitoral. Os temas complexos têm soluções também complexas. Esta é uma primeira dimensão que os jornalistas devemos considerar.

Contudo, quero ir mais além. Que provoca em nós a migração? Que pensamos realmente dos imigrantes? Pergunto isto porque está cheio de respostas politicamente corretas. Mas, olhamos os imigrantes de maneira diferente a como olhamos para nós mesmos os chilenos?

Moramos em um dos países mais desiguais do mundo. Esta desigualdade se evidencia em cada metrô, em cada espaço da cidade. Em uma região como a Metropolitana— mas não é muito diferente em muitas outras regiões— a desigualdade literalmente se “vê”. Tem comunas que são para ricos e outras para pobres. Tem escolas para ricos e para pobres. Tem hospitais para ricos e para pobres. Tem até shopping para uns e outros. O trato da justiça é diferente se for pobre ou rico, na prisão o 95% dos condenados proveem de situação de pobreza— e não é porque só os pobres sejam delinquentes.  Carabineiros trata diferente ao que mora em Vitacura e ao que mora em Puente Alto.

É estranho então o racismo e classicismo com os migrantes?

Há uma semana foi notícia o regulamento de um prédio em Ñuñoa onde os trabalhadores da comunidade não podiam se banhar na piscina, entre eles os filhos e filhas dos trabalhadores de casa particular. Explodiram as redes sociais. Contudo minha pergunta é sabemos desses regulamentos todos os verãos— são notícia— quantos de nós realmente pensamos que os trabalhadores não podem ter acesso às piscinas? Se este regulamentos existem… Não corresponde com o que pensam os residentes?

Insisto: pode ser estranha a discriminação com os imigrantes? Com estes dados, podemos receber bem os imigrantes? A imigração demonstra como somos. A imigração pode fazer sair o pior de nós, os chilenos. Podemos acabar culpando a imigração de todos nossos males. Podemos achar ali o “bode expiatório” perfeito para uma sociedade em extrema desigualdade e segregação. Outra dimensão a considerar como jornalistas.

Neste contexto, qual é o papel da mídia? Sempre afirmei que a mídia não é diferente a sociedade em que mora. Se o país for centralista, a mídia também será centralista. É uma resposta satisfatória? Não, é não. E esse é o desafio. Os fatos noticiosos têm sempre relação com um contexto. Eles têm uma origem, uma explicação. A imigração não foge dessa análise. Ainda mais, o que afirmei nesta coluna é justamente o contexto que a mídia deveria explicitar na gora de falar deste tema.

Hoje a mídia replica o olhar classista que temos sobre a sociedade chilena e isto abrange os imigrantes. Se, no desenvolvimento de notícias, tratamos diferente a uma vítima ou agressor por serem de Las Condes ou de San Bernardo, também fazemos o mesmo se for chileno ou estrangeiro. Então, tal como a mídia amplia as diferenças entre os mesmos chilenos, também as ampliamos para os estrangeiros. É casualidade que os candidatos presidenciais relacionem imigração com delinquência? O é o resultado de construções mediáticas que não têm a ver com as cifras reais que tem a polícia e o Ministério Público? Hoje a mídia faz mais parte do problema que da solução. Estamos aqui para solucionar os problemas da sociedade? Não. Mas sim temos a missão de dar contexto a aquilo que nos rodeia.

Dou um exemplo. O temor à delinquência no Chile não tem nada a ver com a cifra real de fatos delituosos. Existe responsabilidade da mídia nisso? Sim. É por acaso porque a delinquência “vende”, inspira o interesse ou aumenta o rating? Sim. Podemos surpreender-nos da utilização política da delinquência como “o temor dos chilenos” Certamente, não. Um contexto adequado levaria a nos fazer outras perguntas em torno à delinquência. A que chamamos de delinquentes no Chile. Que acontece nas prisões? Por que tem alta reincidência? Que faz o sistema com as pessoas que cometem um primeiro delito? Por que 95% dos presos no Chile proveem de famílias pobres? Ou por que 50% dos presos já passaram por um centro do Sename (Serviço Nacional de Menores)?

Com a imigração, como mídia também devemos fazer-nos a pergunta que corresponde. Estabelecer um contexto.

O que fica claro é que a imigração chegou para ficar aqui. Não temos volta atrás. Gostemos ou não. Celebremos ou não a diversidade. Já não depende de nós. O que sim depende de nós é o olhar que demos aos imigrantes. O que sim depende de nós é o regulamento com que seja tratado o tema. O que sim depende de nós é se continuaremos reproduzindo com eles o mesmo classicismo e segregação que nos afeita hoje aos chilenos. O que sim depende de nós é superar o medo com o que olhamos ao que mora no outro quarteirão, ao frente ou ao lado. O que sim depende de nós, como mídia, é fazer as perguntas e estabelecer o contexto. O que está em jogo é construir uma sociedade distinta, entre nós e para os outros.

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