Balanços, vozes, convergências e desafios: academia, Estado e sociedade civil

Share

Por Jaime Campos, Professor associado do Departamento de Geofisica da U. do Chile, Diretor do Programa de Redução de Riscos e Desastres da Universidade do Chile

Traduzido por Gladys Cabezas

Se fazemos contagem e se consideramos todos os esforços realizados no nosso país, desde o ano 2010 para frente, para abordar os desastres socionaturais, existem dois elementos de análise que se destacam.

O primeiro é que posterior do mega terremoto do 27/F surgiu com força um novo discurso ou, de preferência, um “novo paradigma” que diz respeito dos desastres socionaturais. Começamos por falar em chave tais como o risco e o gerenciamento e/ou redução do risco, ameaças, vulnerabilidades, resilência, etc.

O segundo é que foi produzida uma aprendizagem e uma internalização de lições não só para o Estado— e seus órgãos encarregados diretamente da emergência—, mas também para a academia e a sociedade civil. Por exemplo, os sistemas de alerta precoce melhoraram consideravelmente, foram eliminados certos “obstáculos administrativos” que retardavam a ação do Estado e surgiram, tanto no mundo público como privado, iniciativas norteadas para a prevenção, preparação e mitigação do risco, assim como a reação em face da emergência e reconstrução post desastre, quer dizer, à compreensão do risco como um ciclo. Se bem o resultado é positivo, porque existem avanços; persistem problemas.

Tanto o risco como a ameaça e os desastres socionaturais, per se, são pluridimensionais, pelo que precisam de uma abordagem integral para o curto, mediano e longo-prazo, incluindo a exposição e a vulnerabilidade, características próprias do desastre, assim como a sua governança. Infelizmente, pese às aprendizagens, as atuais iniciativas legais em discussão a respeito destes tópicos carecem de coerência entre elas, escasseiam de uma vissão sistêmica estão focadas principalmente só na resposta perante a emergência.

Como mea culpa, de um tempo até agora, desde a academia temos cedido o protagonismo em certos “temas país”, o que tem contribuído, indubitavelmente, na redução no nível de discussão que este debate nacional precisa e que o Chile merece.

Para maiores informações, analizemos um caso concreto

Há 10 anos, entre janeiro e julho de 2007, uma série de tremores (quase mil) foram percebidos perto de Puerto Aysén, desatando na população uma grande preocupação e uma forte demanda para as autoridades locais e nacionais, em termos de gerenciamento de risco de desastres socionaturais. O evento mais crítico foi registrado em 21 de abril desse ano, com um sismo de magnitude Richter de M6.2, de epicentro localizado próximo de Puerto Aysén, que gerou um deslizamento de massa que ao ingressar ao fiorde produziu um “tsunami de fiorde”, quer dizer, uma série de ondas e marulhos na zona da costa vizinha, provocando quatro mortes, seis desaparecidos e danifiçação material que somaram cem milhões de dólares.

Neste caso, um elemento importante, além do desastre natural, foi a crise institucional, de legitimidade e política que se desatou por falta de coordinação entre as autoridades locais e nacionais para enfrentar a emergência, a qual foi agravada pela incapacidade dos entes técnicos encarregados de gerenciar o conhecimento pertinente e oportuno.

Neste contexto, a falta de diretrizes claras e coerentes por parte das instituições locais e nacionais foram progressivamente acentuando a tensão social e política em Aysén. Em quanto diferentes autoridades emitiram explicações opostas do fenômeno, gerando desconfiança na informação oficial, a mídia (nomeadamente a nacional) diminuiu o impacto do acontecido para os habitantes, contribuindo para a agitação social, a indiferença e o desamparo, o que não demorou em derivar em violentos protestos contra a visita das autoridades, horas após do sismo crítico de 21 de abril.

O que aconteceu em Aysén em 2007? Que faltou por fazer? Qual é o sistema que permitiria reduzir eficazmente o risco em face dos desastres socionaturais? Essas são as perguntas às que é orientado o Programa de Redução de Riscos e Desastres CITRID, da Universidade do Chile. Um espaço transversal onde, a partir de múltiples disciplinas, é promovida a coordinação, integração, desenvolvimento e divulgação de saberes e práticas não só de tipo puramente científico e tecnológico para que sejam capazes de atender eficazmente os requerimentos do Estado e da sociedade em relação ao gerenciamento dos desastres socionaturais.

A origem de CITRID remonta nos fins de 2013, quando um grupo de acadêmicos de distintas faculdades participou na organização do X Simpósio Internacional sobre Multi-risco da Associação de Universidades da Cuenca do Pacífico (APRU), que foi realizada no ano seguinte.

Esta equipe continuou trabalhando e em 2016 se converteu no programa CITRID da Universidade do Chile, integrado por acadêmicos com reconhecida experência e conhecimento em temas sobre gerenciamento de riscos de desastres socionaturais. Cada um deles aporta desde diversas disciplinas como a psicologia, economia, engenharia, sismologia, geologia, meteorologia, climatologia, ciências da computação, medicina, direito, geografia, antropologia e arquitetura, entre outras.

O programa promove fortemente a docência e a divulgação dos saberes práticos para a redução dos riscos socionaturais, participando em foros abertos de reflexão para a comunidade e com órgãos do Estado. Até agora, CITRID tem desenvolvico iniciativas que gerenciam espaços de diálogo e criam pontes entre a academia, o Estado e a cidadania.

Hoje CITRID está trabalhando em convênios de colaboração com instituições públicas, estamos organizando encontros periódicos com ministérios e serviços, e estamos participando em instâncias a nível regional, como o Conselho público Privado das “100 Cidades Resilientes”, onde fomos convocados pela Prefeitura da Região Metropolitana. Temos desenvolvido múltiples seminários de redução e gerenciamento de riscos e temos estado em interlocução constante com parlamentares e com a Comissão Futuro do Senado.

Uma iniciativa que nos satisfaz é a organização de um Curso de Formação Geral para alunos de diferentes faculdades de nossa Universidade, chamamo “Gerenciamento do Risco de Desastres Socionaturais: uma Introdução Crítica e Integral à Situação Chilena”, cuja terceira versão será realizada neste ano.

Um enfoque transdisciplinar para um país vulnerável

No seu trabalho, CITRID assume um enfoque transdisciplinar no qual são integrados diversos saberes provenientes das disciplinas que atendem os temas da redução dos riscos socionaturais nas diferentes fases: caracterização de ameaças, prevenção, mitigação, resposta, recuperação e reconstrução. Por isto se fala de um enfoque integrador, holístico e transversal.

Este enfoque é fundamental em um país como o Chile, altamente vulnerável frente às ameaças de desastres naturais, que deve estar preparado para todo tipo de circunstâncias. Por suas característica geológicas é um território no qual constantemente acontecem e vão seguir acontecendo desastres naturais. Terremotos, tsunamis, inundações, secas, incêndios florestais, deslizamentos em massa de diferentes tipos, marulhos e erupções vulcânicas fazem parte da nossa história.

E voltando ao caso de Aysén, um enfoque transdisciplinar teria permitido abordar a situação a tempo, considerando todas as fases de redução dos riscos e todas as dimensões de conhecimento que são requeridas.

A transdisciplina olha o mundo na sua unidade diversa, não separa ainda que distinga diferenças. A transdisciplina representa a aspiração a um conhecimento o mais completo possível, que seja capaz de dialogar com a diversidade dos saberes humanos. Por isto, o diálogo de saberes e a complexidade são inerentes à atitude transdisciplinar, que levanta um mundo como pergunta e como aspiração. Assim, a resilência a que aspiramos construir no nosso país ante os desastres naturais acaba sendo uma “propriedade” do sistema social, que emerge só quando somos cientes coletivamente deste novo paradigma sobre o Ciclo do risco e dos aspectos que determinam ele como um construto social.

Esse é o enfoque que estamos trabalhando desde CITRID e com o que pretendemos aportar às políticas públicas do país.

Related Posts