Ciência, tecnologia e inovação para a resiliência em face dos desastres de origem natural

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Por Juan Carlos de la Llera, Decano de Engenharia da PUC, pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa para a Gestão Integrada de Desastres Naturais, Presidente da Comissão Nacional para a Resiliência face aos Desastres de Origem Natural

Traduzido por Gladys Cabezas

Os incêndios florestais recentes que atingiram a zona central do Chile durante o verão de 2017 trouxeram, na atualidade, sentimentos parecidos com os experimentados depois do terremoto de 27 de fevereiro de 2010. Aparentemente, uma e outra vez nosso país é submetido a estes eventos incrivelmente poderosos. Além disto, nas últimas décadas a frequência com a que sofremos desastres de origem natural tem aumentado segundo os registros do Marco de Sendai para a Redução de Risco e Desastres 2015-2030.  Dos países da OCDE, o Chile é o mais propenso a este tipo de desastres, com 54% de sua população e 12,9% do seu território exposto a três ou mais tipos de ameaças. Do mesmo jeito, os desastres causados por ameaças naturais tem sido uma constante companhia na história do Chile. Em pouco mais de 200 anos de existência, pelo menos 97 terremotos de magnitude 7 ou mais afetaram nosso território, 18 deles considerados altamente destrutivos conforme os poadrões do Centro Sismológico Nacional. Além disto, os dados da International Emergency Disasters Database (EM-DAT) mostram que o país foi afetado pelo menos por 19 inundações, dez incêndios maiores, onze erupções vulcânicas, quatro grandes deslizamentos em massa de terra e duas secas de grande magnitude. Em média, as perdas anuais associadas a desastres de origem natural entre 1981 e 2011 foram por volta de 1,2 do PIB do País (UNISDR, 2015).

Apesar desta permanente convivência com eventos desta natureza, o Chile não só tem demonstrado uma notável resiliência, mas também tem gerado novas capacidades como resposta a estas catástrofes, o que tem permitido melhorar a institucionalidade de maneira constante. Um claro exemplo disto é a criação do Serviço Sismológico Nacional depois do terremoto de 1906, o desenvolvimento da Corfo como resposta ao terremoto de Chillán em 1939, a Onemi depois do grande terremoto de 1960, e a criação do Observatório Vulcanológico dos Andes do SUR (OVDAS) posterior a erupção do vulcão Chaitén em 2008. Se bem é claro que ainda fica muito por fazer em termos tantos de prevenção, gerenciamento de emergências e de recuperação de sistemas, é importante, como demonstram os exemplos anteriores, reconhecer que nos temos sido capazes de fortalecer o Estado através do tempo com cada grande prova da natureza.

Neste contexto, e muito influenciado pelo impacto físico e social do terremoto e tsunami de 2010, o governo criou em 2016, mediante o Conselho Nacional de Inovação para o Desenvolvimento, a Comissão Nacional de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (I+D+i) para a Resiliência em face de Desastres de Origem Natural, CREDEN. Talvez o elemento mais inovador é que o mandato presidencial para esta comissão foi originada na convicção de que o desenvolvimento de uma estrategia de I+D+i  deve ser considerada como um elemento chave no ciclo de gerenciamento de risco, ao mesmo tempo de fornecer uma oportunidade para o crescimento sustentável e desenvolvimento científico-tecnológico de nosso país.

O documento final produzido por CREDEN, chamado Hacia un Chile resiliente frente a desastres: una oportunidad – Estrategia Nacional de Investigación, Desarrollo e Innovación para un Chile Resiliente frente a Desastres de Origen Natural (Para um Chile resiliente face aos desastres: uma oportunidade- Estratégia Nacional de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação para um Chile Resiliente em face de Desastres de Origem Natural), foi entregue para a presidente de CREDEN e é estruturado como um grupo integrado por 14 tarefas que procuram gerar e utilizar conhecimento básico, aplicado, associativo e interdisciplinar em relação com a resiliência em face de desastres de origem natural. As tarefas identificam um conjunto de atividades concretas que permitem diminuir as lacunas de conhecimento e capacidades a curto (três anos) e longo prazo (20 anos), e tratam da dimensão social da resiliência, a dimensão de projeção do I+D+i para o desenvolvimento do país, a dimensão de simulação e gerenciamento do risco, e a dimensão física das ameaças naturais e a exposição das comunidades.

Adicionalmente, a estratégia reconhece cinco condições habilitantes transversais que conformam elementos fundamentais para gerar uma dinâmica consistente capaz de implementar e manter esta estratégia no tempo. Estas macro-iniciativas abordam as principais debilidades estruturais para I+D+i em resiliência do país e fomentam a associação colaboracionista entre o Estado, as ciências, a tecnologia e a sociedade. As condições habilitantes consideram: (i) a criação de uma institucionalidade de I+D+i para a resiliência em face de desastres naturais de origem natural; (ii) a integração e consolidação dados e informação em uma nova infraestrutura de dados pública para o I+D+i e a transferência; (iii) a criação de programas de formação de capital humano avançado específico em resiliência nas diferentes ciências em conjunto com as melhores universidades e centros tecnológicos do mundo; (iv) o desenvolvimento de uma infraestrutura maior e sofisticada para a descoberta e a inovação em temas de resiliência na modalidade de grandes laboratórios nacionais y (v) a implementação de um programa nacional de outreach e divulgaçaõ científica que permita realizar oportunamente a pesquisa desenvolvida nas comunidades.

Finalmente, a comissão trabalhou para dimensionar quanto deveria investir o Estado para complementar a implementação da estratégia. Desta maneira, foi estimado que a iniciativa significasse um investimento aproximado de US$ 45,7 milhões por ano, para um total de US$ 914,2 milhões em 20 anos. Junto com o orçamento, a comissão determinou que baseados nas experiências e estudos internacionais similares, a estratégia teria uma rentabilidade esperada de 2,32 vezes, como o que se espera que a proposta, na média, represente para o país uma poupança anual próxima aos US%106 milhões correspondentes a perdas menores por causa dos desastres de origem natural.

O trabalho CREDEN não só resultou na estratégia de I+D+i, mas também permitiu gerenciar um mecanismo de continuidade para o trabalho desta comissão multisetorial e multidisciplinar. Deste jeito, um financiamento de Corfo permitiria, durante 2017, produzir o design detalhado do novo Instituto Tecnológico Público de I+D+i para a Resiliência em face de Desastres de Origem Natural, ITREND. Este projeto está sendo executado por um grupo da Escola de Engenharia da Pontifícia Universidade Católica do Chile junto com o Centro de Modelamento Matemático da Universidade do Chile. Espera-se que como resultado desta iniciativa, ITREND seja constituida uma meta-instituição que forneça uma vissão de longo-prazo para o I+D+i em resiliência em face de desastres naturais de CREDEN, coordine as capacidades de I+D+i existentes no país para as metas e objetivos descritos na estratégia y estimule a geração de uma cultura de resiliência na população chilena.

O trabalho da comissão foi um primeiro passo para pagar uma enorme dívida que o país ainda tem com o I+D+i aplicada e associada à resiliência e desastres de origem natural. A estratégia de CREDEN não só procura avançar no conhecimento para reduzir os impactos que nossa geografia impõe na nossa população, mas também entende esta condição única do nosso país como uma oportunidade para o desenvolvimento sustentável do Chile, desde onde podemos demonstrar ao mundo as capacidades de resiliência e tecnologias que temos sido capazes de construir ao longo de nossa história para que também outros países possam aproveitar nossa experiência.

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