Para ser um país “resistente” A contribuição dos jornalistas para a gestão de desastres

Share

Por Raúl Rodríguez, Diretor da Escola de Jornalismo da Universidade do Chile, Mestrado em Comunicação Política e, entre 2012 e 2017, Representante Nacional da Asociação Mundial de Rádios Comunitárias (AMARC)

Traduzido por Gladys Cabezas

A ofensiva americana na Síria estabelece um antes e um depois em Oriente Próximo e nas relações internacionais. Não só é um assunto de “balanços” de poder com a Rússia na zona do conflito ou uma nova estratégia da geopolítica americana, mas também um assunto humanitário, cada vez que aumenta o risco de desastre na região.

Conforme a Agência da ONU para refugiados (ACNUR), a Síria enfrenta a maior crise de deslocamento interno do mundo com 7,6 milhões de pessoas e quase quatro milhões de refugiados nos países vizinhos.  O órgão internacional calcula que 4,8 milhões de pessoas precisam de assistência humanitária em zonas de difícil acesso e lugares assediados por tropas de um ou outro bando.

Os desastres em diferentes escalas interpelam mais do que nunca à mídia e líderes de opinião no uso de redes de informação para que circulem mensagens e dados verdadeiros, considerando o estado emocional das vítimas, desde o processo de emergência até a reconstrução.

Assim, a comunicação e o jornalismo em tempos de crise se tornam de outra cor. São testados as linhas editoriais, a produção da informação e os tratamentos jornalísticos exprimidos nas capas dedicadas a estes fatos extraordinários.

No Chile, lembravamos em março do ano passado os dois anos desde as aluviões em Atacama e o processo desigual de reconstrução que tem experienciado a população na zona. Mais recentemente na nossa memória ficam os incêndios florestais, o pior desastre deste tipo na história do país.

No meio da tragédia que atingiu a zona centro e sul, o Conselho Nacional de Televisão (CNTV) solicitou aos canais de TV aberta respeitar o estado emocional das vítimas dos incêndios durante as transmissões.

“É fundamental a cobertura informativa que realizam os canais de televisão para conhecer as necessidades e as ações das instituições que respondem às emergências. Porém, são (sic) nestas circunstâncias que são valorados os protocolos e ferramentas que garantem uma entrega responsável da informação”, expresava a carta enviada aos canais.

Os atores relevantes se multiplicam e a magnitude dos fatos precisam aplicar o maior rigor nas rotinas de produção, com um tratamento eticamente responsável.  Porém, a espetacularização da notícia, a escassa participação cidadã nestes processos e a falta de respostas coletivas à tragédia fazem com que o processo de gerenciamento da informação no meio de um desastre não seja o melhor.

Pautas concetuais para “gerenciar o desastre”

Um desastre tem uma origem natural (terremoto), biológica (epidemia) ou induzida pelo ente humano (como incêndios e guerras), enquanto o risco é a soma das perdas eventuais na vida, ausência de condições de saúde, falta de recursos para o sustento e dificuldade para acessar a bens e serviços, segundo a classificação do Escritório para a redução do Risco de Desastres da ONU.

Por sua vez, o risco provocado por um possível desastre se produz tanto em relação com a ameaça ou o perigo, como com a vulnerabilidade de uma comunidade. Por tanto, o risco pode aumentar e diminuir proporcionalmente na medida em que algum ou ambos os fatores variam no tempo.

Em face disto, a pergunta é como gerenciar o risco de um desastre, cujo processo social abrange o cálculo do risco, prevenção e redução do mesmo, preparação, resposta e reabilitaçaõ, y reconstrução.

A terceira Conferência Mundial das Nações Unidas celebrada no Japão em 2015 aprovou um Novo Marco para a Redução de Riscos de Desastres 2015-2030, o qual determinou dois propósitos centrais: melhorar a governança no gerenciamento de desastres naturais e fomentar a coordenação de todos os setores.

No Chile ainda existe uma dívida neste assunto para o gerenciamento adequado de desastres, devido a que a seis anos de ingressar ao Congresso, em 22 de março de 2011, o projeto de lei que cria o Sistema Nacional de Emergência e Proteção Cível e a Agência Nacional de Proteção Cível, ainda está na sua segunda tramitação constitucional no Senado.

Ainda que a grande urgência dada este ano, por causa dos incêndios florestais no verão, o Estado e suas instituições avançam muito mais devagar do que for necessário pela “realidade” socionatural do país. Nesta atitude reativa só aumenta o risco de novos eventos, contrário à necessidade de políticas públicas e de desenvolvimento sustentável no quesito economia, ambiente, segurança e terrritório.

A mídia, neste sentido, pode ter um papel importante a respeito destes desafios para mudar a improvisação pelas tarefas permanentes. “os desastres podem reduzir consideravelmente se as pessoas se mantêm informadas sobre as medidas que podem tomar para reduzir a vulnerabilidade e se permanece motivada para agir”, afirma o Marco de Ação de Hyogo das Nações Unidas, 2005, assinado pelo Chile.

Pautas para a ação: o jornalismo ativo

A abundância de memes se tornou habitual quando vemos jornalistas ‘todo-o-terreno’, molhados até o ‘pescoço’ para demonstrar os estragos do temporal; ou aos jornalistas ‘sensíveis’ de alguns programas matinais que choram com os afetados pelos incêndios. Isto confirma a necessidade de avançar em protocolos para regulamentar os tratamentos informativos em situação de calamidade.

O Escritório para Redução do Risco de Desastres da ONU entregou recomendações aos estados e à mídia para fazer face às “ameaças” e preven ir de melhor maneira os “desastres”. De usar a linguagem apropriada até gerenciar uma cultura de prevenção que seja um referente para a comunidade e a cidadania, são elementos centrais para que a mídia, nomeadamente, aquelas de maior impacto, possam dar um serviço oportuno e veraz, mas também possam cumprir seu papel de comunicadores com sentido ético e de responsabilidade social.

O CNTV (2015) já advirtiu em um documento para a “Identificação de boas práticas para a cobertura televisiva de tragédias, desastres e delito” que ainda que os canais de televisão tenham estabelecido normas de autoregulamento, não têm normas específicas ou práticas que validem sua implementação dentro do seu exercício cotidiano, conforme com as definições programáticas e editoriais.

No Manual de Gestão de Riscos de Desastres para Comunidadores Sociais desenvolvido pela UNESCO em 2011, propõe ações sobre a base da Estratégia Internacional para a Redução de Desastres Naturais das Nações Unidas, como difundir conhecimentos científicos e tecnológicos sobre os riscos e as ameaças; promover a incorporação e participação ativa no processo de gestão de risco da mídia massiva e alternativas, instituições acadêmicas e grêmios da comunicação; e evitar a desinformação e o abuso na função informativa e comunicativa promovendo códigos de comportamento ético para os comunicadores em momentos de emergência ou desastre.

Lucy Calderón, jornalista guatemalense, especialista em comunicação em gestão do desastre e ex-presidente da Federação Mundia de Jornalistas Científicos, propõe a Palavra Pública três tarefas essenciais: “antes de tudo deve ser dado um toque humano às informações que sejam publicadas, mas sem causar mais vitimização nas pessoas, tentando dar respostas a perguntas que mais estejam pesando na população afetada”. Segundo, dentro das redações deve ser formado um grupo ad hoc para responder informativamente à catástrofe, por isso a capacitação deve ser constante para os jornalistas. Y terceiro, além da contagem de danificações, o jornalista deve informar sobre prevenção. Como a comunidade afetada pode evitar que aconteça algo parecido. Deve oferecer informação que lhe ajude a ser resiliente e evitar maiores danificações no futuro.

Ainda que a mídia local e comunitária, e a mídia digital e centros de pesquisa jornalística tenham contribuido a diversificar a oferta e propor novas perspetivas aos conflitos que nós atravessamos, a mídia no seu conjunto deve oferecer um debate mais informado sobre os efeitos e consequências de estas catástrofes, a fim de fomentar uma cultural de prevenção e não só uma cultura de reação.

Related Posts