Doenças do corpo político

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Por María José López, Filósofa e acadêmica do Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia e Humanidades da Universidade do Chile.

Traduzido por Gladys Cabezas

Quase tão antiga como a pergunta sobre que é uma comunidade política, que a compõe e como é fundada, é a pergunta por sua corrupção. A palavra corrupção vem do latim corruptio (onis) e faz referência à ação e efeito de danificar, inclusive destruir completa ou globalmente algo, seja material ou imaterial. A raiz da palavra deriva do verbo rumpere, de onde vem nosso romper, que indica a ação radical de quebrar, fazer pedaços, destruir de maneira violenta.

Relacionada desde suas origens à ideia da decomposição corporal, a corrupção é o princípio essencial das primeiras concepções de doença no mundo clássico. A corrupção, entendida como desequilíbrio entre os humores do corpo, podia ser geralmente restabelecida mediante tratamentos de expulsão dos humores, o que permite recuperar o equilíbrio corporal entre as partes ou elementos que compõem tanto a alma como o corpo. A saúde depende dos vínculos saudáveis dos seus elementos.

Porém, o renascentista Maquaivel, envolvido diretamente na política da sua cidade, quem reflete de maneira direta sobre a corrupção do corpo político, que sofre as mais graves doenças. Maquaivel considera-se a se mesmo como um “boun medico” capaz de identificaras doenças de Florença e poder decretar com rapidez e efetividade os remédios necessários, como se indica em “Para purgar os ânimos de aqueles povos” de Sandro Landi e recuperado em Metáforas e conceitos de laço social na história moderna e contemporânea.

É a comunidade política um corpo? Faz sentido atualmente falar dela nesses termos? É uma metáfora antiga, mas conforme minha opinião, ainda produtiva. Porque pensar na comunidade política como um corpo, reconhecê-la desde um paradigma orgânico, implica reconhecê-la como uma realidade em constante mudança e que tem uma história, que está composta de elementos distintos, que, porém, pode ser coordenada. Além disto, se sofre de doenças, se é corrompida, quer dizer que essa comunidade está viva.  Não sempre nos lembramos de que a corrupção acontece em um corpo vivo.

Mas que corrompe os corpos políticos? Para o mesmo Maquiavel, todas as comunidades, nomeadamente, as melhores, estão expostas a corrupção. Nos Discursos da Década de Tito Lívio o dilema se move dentro de dois polos que legitimamente movimentam a vida política: por um lado, a procura da grandeza associada também à ambição e a virtú individual.  E por outro lado, a verdadeira grandeza, que só é da República, da comunidade política no seu conjunto. Como pode ser evitado o deslizamento quase natural para o interesse individual? Quer dizer, para a corrupção. Como pode se manter viva em uma comunidade o interesse pelo bem público durante um período de tempo o suficientemente longo a fim de obter a grandeza cívica da cidade?

A resposta de Maquiavel nesse ponto, pelo menos nos Discorsi, sustenta-se em uma confiança bastante imbatível no povo, que não é a única força, o único grupo, mas resulta ser mais confiável que qualquer príncipe. Basicamente, porque o povo, por sua variedade e multidão, pode alcançar maior virtú e seus erros podem ser corrigidos melhor e mais eficazmente que os erros do príncipe. Assim, o povo mesmo é o melhor guardião da liberdade e, em geral, não tem que temer dos tempos de tumulto e divisão.

Contudo, tem que saber usar esses momentos para reforçar os laços da comunidade pelo menor a partir de estratégias complementárias: por uma parte, a manutenção de certos níveis de igualdade que minimizam os efeitos da inveja e ressentimento. Por outro lado, a necessidade de que o povo se exercite na liberdade. Que seja capaz de opinar e participar de sua forma de governo na paz e na guerra. Estes compromissos e atividades constantes de uma cidadania ativa ligarão o laço entre os elementos ou grupos que compõem o corpo político e mantém sua saúde.

A corrupção avança quando as diferenças se traduzem em separação, as partes do corpo se separam, gerando os umori hostis e a divulgação dos rumori negativos. Entendamos bem, Maquiavel não está trás a procura de uma unidade fundada em uma vontade homogeneizante, nada mais longe do espírito agonista e comprometido com a crítica e o dissenso do florentino. Trata-se, mas bem, de uma fragmentação das partes do tudo, que se expressa como desamor para a cidade, que como afirma Landi se manifesta em uma forma específica de incontinência, que faz eco de discursos maldizentes e potencialmente sediciosos.

Também não se trata de impor uma falsa reconciliação entre as distintas partes que compõem a República, partes irreconciliáveis que possivelmente só têm em comum o vínculo para esse corpo. De fato, segundo Maquiavel, a desunião e a dissidência não foram um obstáculo, mas alimentaram e fizeram possível a grandeza de Roma. Pelas discussões de gênero e as instituições que permitiram formar, a desunião, que não é desmembramento, fez livre Roma.  Deste jeito, a corrupção não vem das diferenças, das visões inconciliáveis, dos tumultos do povo. Vem de uma falta de visão mais profunda que o pensador florentino detecta.

Aqui a principal corrupção consiste em uma perda da virtú de seus cidadãos e com isto seu interesse no bem comum e pela política, o que fez deles, pessoas preguiçosas e ineptas. E também perder o sentido e a oportunidade de grandeza, que só é possível em comunidade, no corpo político. Trata-se para Maquiavel da restrição dos interesses unicamente aos interesses pessoais, perdendo a visão da totalidade da República. Este é o centro da questão e que atualmente continua sendo uma pergunta completamente atual: que é a comunidade política? Que a constrói?  Que movimenta e da vida ao corpo político? Sem dúvida, os interesses individuais e os próprios desejos de glória ou de poder, mas não isso só.

Pode que a comunidade não goze de popularidade, pode que seus líderes estejam, igual que o seus cidadãos, confundidos, ou sejam ineptos, ou estejam cheios de mau-humor, mas continuamos fazendo parte de um todo. Continuamos fazendo parte de um corpo político que tem vida, ainda que seja difícil de aceitar, sua historia e sua história e suas possibilidades de mudança. Se só temos á vista nossas necessidades particulares, os nossos próprios interesses é porque nos sonhamos como órgãos isolados. Como para o florentino, para nós a verdadeira doença é esta ilusão, esta miragem das partes que se sentem algo mais que partes. A verdadeira doença é não querer, não saber, não poder ver tudo.

Referências

Machavello, Nicolás. El Discurso de la Década de Tito Livio, Alianza: Madrid, 1987, p. 81.

Landi, Sandro. “Para purgar los ánimos de aquellos pueblos” en En Godicheau, F. y Sánchez León P. Palabras que atan. Metáforas y conceptos del lazo social en la historia moderna y contemporánea. México, FCE, 2015.

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