Situação da ciência no Chile: é preciso a contribuição das universidades estatais

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Por María Cecilia Hidalgo, Professora Titular da Universidade do Chile, Doutora em Ciências, Prêmio Nacional de Ciências Naturais 2006.

Traduzido por Gladys Cabezas

Em 2015, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) concluiu que o Chile tinha que avançar para uma sociedade do conhecimento a fim de potenciar seu desenvolvimento social e econômico. Neste artigo, apresento minha visão sobre como o estado atual da ciência em nosso país é limitante para realizar esse avanço e como as universidades estatais poderiam contribuir para resolver esse problema.

Escasso número de pesquisadores. Atualmente, nosso país tem sete vezes menos pesquisadores por milhão de habitantes do que a média dos países da OCDE, definindo como pesquisadores aqueles que geram novos conhecimentos e comunicam-no em publicações. Essa escassez de pesquisadores, que é ainda mais grave nas ciências sociais, nas ciências humanas e nas artes, limita a geração de conhecimento, porque falta a massa crítica necessária para gerar o conhecimento do que nosso país precisa e assim poder influenciar de forma importante em seu desenvolvimento. Portanto, é urgente e essencial implementar medidas para aumentar o número de cientistas que trabalham no Chile. Isso permitiria um modelo de desenvolvimento mais amplo e mais equitativo centrado não apenas em aspectos econômicos, mas é essencial para gerar novos conhecimentos em aspectos sociais e culturais que nos permitam eliminar a grande desigualdade econômica e social que o nosso país exibe.

Uma maneira lógica e efetiva de aumentar a nossa pequena comunidade científica seria incorporar os cientistas formados no país e recuperar aqueles que foram para o exterior para se aperfeiçoar, financiados com programas como Becas Chile. Ainda que este programa permitisse que muitos jovens chilenos tivessem a oportunidade de completar as formação de pós-graduação em instituições estrangeiras de prestígio, não foi gerado um programa paralelo reinserción- Chile que garantisse a reinserção de bolsistas em nosso país. Como consequência, estamos perdendo e corremos o risco de continuar a perder no futuro toda uma geração de jovens talentosos com uma formação excelente da que precisamos urgentemente para impulsionar nosso desenvolvimento. O conjunto de universidades estatais  poderia desempenhar um papel decisivo na inserção de jovens cientistas, tanto formados no Chile como no exterior, especialmente se for constituido o Conselho de Coordenação proposto no  projeto de lei das Universidades do Estado. A inserção de novos pesquisadores nessa rede através de um programa de reintegração bem desenhado permitiria a expansão e compartilhamento de atividades científicas para gerar novos conhecimentos e impulsionar a inovação.

Falta de valoração da atividade científica criativa. Em minha opinião, como sociedade, não valorizamos as atividades que são fundamentais para avançar para o desenvolvimento, porque não apreciamos nossos cientistas e educadores ou nossos técnicos. Sabemos que permitir o acesso em massa de nossa população a uma educação de qualidade, de preferência estatal, é uma maneira comprovada de reduzir a desigualdade cultural, social e econômica de nossos habitantes e também permite promover o desenvolvimento de futuros talentos científicos. Se não mudarmos essa perspectiva, será difícil para nós ter os professores necessários para formar os nossos futuros pesquisadores e as pessoas com formação de qualidade que são necessárias para fornecer suporte técnico efetivo à cadeia de geração de conhecimento.

Falta de apoio econômico e institucional para a atividade científica criativa. Existe um consenso de que um forte apoio à ciência caracteriza todos os países desenvolvidos, sem exceção, e quando falo de ciência, incluo todas as disciplinas que geram novos conhecimentos. Nosso país, que tem uma forte tradição de pesquisa científica focada principalmente em algumas de suas universidades, mostrou um progresso notável nos últimos 30 anos, apesar do escasso apoio financeiro público e privado e do pequeno número de pesquisadores nacionais. A qualidade e o impacto internacional das publicações chilenas, que se destacam em relação às de outros países latino-americanos, motivaram nosso país a ser mencionado pelo Nature Index, Rising Stars 2016 como um dos 10 países do mundo e o único das Américas, que, apesar do seu pobre investimento em ciência, tecnologia e inovação, fez avanços notáveis no desenvolvimento de sua ciência, principalmente na astronomia e, em menor grau, nas ciências biológicas.

No entanto, hoje, o desenvolvimento científico e tecnológico do Chile enfrenta uma crise grave, causada por uma política nacional nociva, economicista e carente de visão, e que, além disto, é ineficaz na promoção do desenvolvimento da ciência e em conseguir  que os conhecimentos gerados  pelos nossos científicos contribuam no desenvolvimento do país. Esta ideologia, que privilegia a ciência por propósito em detrimento da ciência básica, omite os importantes efeitos benéficos que ela traz para a sociedade em termos de educação, cultura e inovação. Não apreciar o contributo da ciência básica para o desenvolvimento do país é nefasto, porque nos enfraquece como um país criador e nos leva à perda de talentos e às possíveis aplicações do conhecimento gerado, o que restringe o progresso no almejado desenvolvimento integral do Chile.

O investimento atual do Chile em ciência, tecnologia e inovação, que representa cerca de 0,38% do Produto Interno Bruto (PIB), fica bem por deebaixo do investimento nos países da OCDE, que em média é maior do que 2%, e ainda menor que o investimento realizado por outros países da América Latina, como Argentina, Brasil e México. Além disso, até hoje, a instituição científica chilena tem um alto grau de fragmentação, resultando em uma grande dispersão de programas de investimento público para pesquisa e desenvolvimento. Portanto, é urgente gerar uma nova institucionalidade que represente os cientistas contra aqueles que tomam decisões sobre o desenvolvimento da ciência no país. A presidente da República, dona Michelle Bachelet, anunciou a criação de um Ministério da Ciência e Tecnologia em janeiro de 2016. A comunidade científica espera que a criação deste ministério, que também incorpora inovações baseadas no conhecimento científico, contribuia para resolver problemas urgentes que mencionei neste artigo. No entanto, também existem receios de que este ministério seja transformado em mais outra instituição estatal, com pouca efetividade real e escasso financiamento.

Falta de divulgação da atividade científica. E, finalmente, outro desafio que enfrentamos é o fato de que, como os cientistas que trabalham no Chile somos muito poucos, é difícil realizar uma tarefa importante em que estamos endividados como comunidade em nossa sociedade. Temos de explicar e convencer a população do nosso país de que a geração de conhecimento é fundamental para garantir nosso desenvolvimento. Consequentemente, temos que responder de forma convincente e clara a questão de por que é importante fazer ciência no Chile? As universidades estatais têm um papel central nesta área, especialmente se o Conselho de Coordenação for criado, uma vez que demonstraram que, apesar das limitações do sistema, conseguiram gerar conhecimento através de pesquisas científicas com vista ao desenvolvimento do país e o bem-estar de seus habitantes.

O papel da ciência não pode limitar-se a aperfeiçoar o modelo atual de desenvolvimento, que busca apenas fortalecer a tecnologia ou a inovação para melhorar a produtividade dos setores de exportação de recursos naturais e outras áreas estratégicas da economia. Pelo contrário, devemos promover um amplo conceito de desenvolvimento científico que encoraje tanto as pesquisas motivadas por curiosidade como por propósito, em todas as áreas do conhecimento e com recursos e visão no longo prazo. Desta forma, podemos transformar nosso modelo atual de desenvolvimento em um modelo que garata o bem-estar, a educação e a saúde de todos os seus habitantes e que possa gerar soluções para os desafios de hoje e do futuro. Nós temos o essencial: uma comunidade de cientistas bem preparados, ativos e conectados ao mundo; comprometidos com seu trabalho e ansiosos para trabalhar no Chile, gerando novos conhecimentos e dispostos a fazer face  aos diversos problemas que enfrentamos como país e como habitantes deste planeta. O país deve apostar em apoiar os cientistas se queremos que o Chile seja um país desenvolvido. Se a política atual não mudar radicalmente e não aumentar significativamente o apoio estatal e privado para a ciência, incluindo um forte apoio à geração de conhecimento em universidades estatais em todo o país, existe certo risco de perder tudo o que foi alcançado nas últimas três décadas. Em particular, existe o risco de perder toda uma geração de pesquisadores que levaram muitos anos para se formar tanto no país como no exterior.

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