Universidades estatais: construção de conhecimento em aliança com a cidadania

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Por Francisco Rothhammer, Professor Titular do Instituto de Alta Investigación da Universidade de Tarapacá e Professor Honorário da Faculdade de Medicina da Universidade do Chile.

Traduzido por Gladys Cabezas

Devo confessar que aceitei com algumas dúvidas o gentil convite da Vice-reitoria de Extensão e Comunicações da Universidade do Chile para escrever uma breve coluna de opinião sobre a relevância de construir conhecimento em aliança com a cidadania e sobre o papel único que os plantéis estatais podem ter neste processo. A origem das minhas dúvidas estava relacionada com o fato de que a variedade de opiniões que existem sobre este tema implica dificuldades para resumi-lo de jeito geral. Então, para evitar omissões involuntárias, decidi focar na experência pessoal adquirida como acadêmico de universidades estatais chilenas, nomeadamente, da Universidade do Chile,  a Universidade Austral (que não é estatal, mas sim é considerada pública) e mais recentemente, da Universidade de Tarapacá.

Não é novidade que no Chile a maioria dos plantéis de ensino superior privados limitem sua atividade à entrega e acreditação de conhecimento, enquanto uma parte importante dos plantéis estatais  misturam a entrega e a acreditação com a construção de conhecimento adquirido por meio da pesquisa científica. Neste contexto, eu acho que é difícil negar a diferença que pode existir entre dar aulas baseados simplesmente na leitura de um livro, geralmente obsoleto, e fazer o mesmo a partir da observação dos resultados de experimentos pessoalmente desenhados.  Além da importância que tem o trabalho científico para aumentar a qualidade da docência, ele é fundamental na hora de gerar conhecimento inovador e, potencialmente, utilizável para uma ampla variedade de aplicações, que podem abranger processos produtivos, métodos estatísticos, procedimentos médicos, divulgação de informação, previsões climatológicas e meio- ambientais, e construção de pontes, etc.

Minha carreira acadêmica començou quando fui contratado como estudante monitor de Biologia Geral na Universidade do Chile. Indubitavelmente, foram os conhecimentos e, em geral, a excelente preparação dos acadêmicose os que de muito cedo despertasse meu interesse pela pesquisa genético-antropológica e biomédica, atividade à que tenho me dedicado durante a maior parte da minha vida. Minhas primeiras experiências como pesquisador incluiram a separação sob um microscópio de moscas machos e fêmeas e a visualização. Depois de fazer complicados procedimentos, de cromossomas de rato nos laboratórios do Departamento de Genética da Facultadade de Medicina, que junto com  outros departamentos básicos da Faculdade, constituiam o Instituto de Biologia Juan Noé, um importante centro de pesquisa de alto nível na América Latina. Contudo, apesar do tempo que meus professores investiram, eu me inclinei para a pesquisa de populações humanas.

Cabe ressaltar que a Faculdade de Medicina fornecia aos pesquisadores com fundos concursáveis para realizar pesquisas científicas, ajuda que me permitiu aceitar a pesquisa de um grupo de colegas epidemiologistas e geneticistas que pesquisavam a alta prevalência de bócio em povos originários do Alto Biobío. Durante o trabalho de campo que foi levado a cabo na redução de Pedregoso, tive a oportunidade de conhecer muito de perto as comunidades pehuenches, experiência que definitivamente foi determinante para orientar minha carreira científica para a construção de conhecimento em colaboração com os povos originários da América Latina.

Continuando com a formação, os contatos que a Universidade do Chile mantinha com o National Institute of Health dos EE. UU. (NIH) permitiu-me postular uma bolsa para me especializar em genética de populações humanas na Faculdade de Medicina da Universidade de Michigan, fazendo uso de uma comissão de serviço de três anos. Ao voltar ao Chile, junto com colegas chilenos e um grupo de pesquisadores norteamericanos, bolivianos e equatorianos fizemos uma extensa pesquisa sobre o efeito que tem na saúde humana a hipóxia a qual ficam expostos os habitantes aymarás da pré-cordilheira e planalto do interior de Arica. É importante destacar que esta pesquisa inicial, posteriormente, originou diferentes projetos biomédicos e bioantropológicos que, por sua vez, geraram redes internacionais de pesquisa que atualmente estão se desenvolvendo no Instituto de Alta Investigación da Universidade de Tarapacá.

Sem dúvida, O trabalho em pareceria com outros cientistas e o mão- a -mão com as comunidades indígenas são uma parte fundamental da minha experiência científica. E a possibilidade de desenvolver projetos de longa projeção com elas, uma função social que só foi possível graças aos princípios que norteam a pesquisa dos plantéis estatais, cujo norte sempre tem ficado e deve seguir ficando na produção de conhecimento beneficioso para o desenvolvimento do país e seus habitantes.

Infelizmente, durante os últimos anos, a colaboração que existia entre os pesquisadores científicos chilenos foi parcialmente substituída por uma impiedosa competição por ganhar projetos de pesquisa e publicar trabalhos científicos, salientado por autoridades acadêmicas que baseam suas decissões na aplicação de medições quantitativas. Indubitavelmente, esta prática distorce o objetivo central do trabalho científico que fica mais vinculado com a qualidade do que com a quantidade. Isto tem relaçaõ com a falta de recursos e com a consequente luta por obter um financiamento estatal adequado para o ensino superior.

À falta de visão do país, adiciona-se a falta de interesse pela ciência por parte de empresários e políticos, e inclusive da cidadania, o que nos afasta do que acontece em otros países emergentes como a China, a India e o Brasil. Embora, tenha havido tentativas de mudar esta situação, ouso dizer que enquanto os próprios cientistas não sejam totalmente conscientes e assimilem adequadamente a dimensão social do seu trabalho, todo aquilo que os liga com a sociedade e as comunidades que mais precisam deles, difícilmente poderão chamar a atenção da cidadania sobre o valor da ciência, em termos de seu potencial econômico, tecnológico, educacional cultural.

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